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domingo, 21 de agosto de 2011

DESAFIOS DA FILMAGEM SUBAQUÁTICA

Esta matéria não é minha. Tive a honra de conhecer em um dos cursos de vídeo que ministro, Rodrigo Lopes, biólogo marinho e especialista em imagens subaquáticas. Um expert no assunto que escreveu exclusivamente para meu blog. Vale a leitura de cada palavra!





Nosso planeta tem o nome errado.
Nossos ancestrais o chamaram de Terra devido ao solo que descobriram a sua volta. A Terra é, na verdade, o planeta da água. Não existe outro igual no sistema solar. Os oceanos da Terra são um fenômeno único na família de planetas conhecidos. Na verdade, é extraordinário o simples fato de existirem.
Esse grandioso fenômeno criou um fascínio no homem, a vontade de desvendar seus mistérios que por sua vez são incalculáveis. Mas, além desses mistérios e de muitos outros que por certo surgirão, nada pode, em verdade, comparar-se à variedade e ao interesse do fenômeno da vida no seio do mar. Ninguém pode fazer um cálculo do número de seres vivos que ali se encontram. Pode-se esperar quase tudo do mar.
Por esses motivos o homem tem o antigo desejo de registras em imagens as paisagens submarinas e seres marinhos.

Filmagem Submarina
A filmagem submarina ganhou expressão na década de 1960, quando surgiram equipamentos mais acessíveis aos mergulhadores. Despontaram então nomes importantes na cinegrafia subaquática, entre eles Jacques Cousteau, que divulgou como ninguém o fascínio do mundo marinho. Eu mesmo cresci assistindo as aventuras de Jacques Cousteau e quanto mais assistia mais vontade eu tinha de me tornar um especialista em imagens subaquáticas.
Jacques Cousteau - Pioneiro nas filmagens submarinas
Vamos lá! Antes de você ser um bom cinegrafista subaquático, em primeiríssimo lugar você dever ser um excelente mergulhador. Por quê? Bom, primeiramente o fundo das águas não é nosso ambiente e, por isso devemos usar equipamentos que nos possibilitam tal façanha.
Mas mergulhar não é simplesmente se equipar e ir para o fundo das águas. Como havia dito, o meio aquático não é nosso ambiente, principalmente quando queremos explorar ambientes de grande profundidade e, quanto mais profundo, mais complexo se torna o mergulho. Se o cinegrafista não souber lidar com essas complexidades, isso o levará à morte.
Não basta ser um bom operador de câmera. Lá, no fundo do mar, é preciso saber monitorar seu mergulho através de computadores, manômetros e bússola. Eles indicarão até onde você pode ir, quando é à hora de voltar e por onde voltar. 

Computador de mergulho e manômetro de pressão do cilindro e profundímetro
Eu mesmo já presenciei um mergulhador que cometeu um erro grave ao registrar seu mergulho com uma pequena Sony P200 em mãos. Ele esqueceu o principal, o monitoramento dos instrumentos de mergulho.
Resultado, ele já estava há 16 metros de profundidade e sem ar suficiente para voltar à superfície. E, ele só se deu conta disso porque outro mergulhador observou tal atitude e viu que o mergulhador estava quase sem ar. Ele conseguiu chegar à superfície? Sim, ele conseguiu graças ao outro mergulhador que dividiu seu ar para que os dois chegassem bem até a superfície. Mas imaginem se fosse um local mais profundo. Há 16 metros de profundidade uma pessoa tem boas chances de chegar à superfície sem maiores danos.

Técnicas
Mergulhos a partir de 18 metros já são considerados como mergulho profundo e requerem uma total atenção nos instrumentos de mergulho além de treinamento específico. Realmente é algo complexo trabalhar com uma câmera subaquática e monitorar o mergulho, mas é extremamente importante. Eu mesmo, nos meus trabalhos, que na maioria das vezes são de 30 a 40 metros de profundidade, sempre levo comigo além da câmera, uma dupla de mergulho, ou seja, um mergulhador qualificado e experiente para fazer toda navegação subaquática e segurança do mergulho. Mas isso não me isenta de monitorar os instrumentos de mergulho. Só vai me deixar mais a vontade para operar minha câmera.


Mergulhador em dupla para navegação e apoio subaquático


Uma técnica que é muito importante para quem trabalha com imagens subaquáticas é o controle de flutuabilidade.
A flutuabilidade é importante tanto para o mergulho em si quanto para a captura de imagens. Qualquer esbarrão de umas das nadadeiras no assoalho marinho é suficiente para levantar suspensão e estragar aquela cena que estava na sua mente e bem ali sua frente.
Mas o controle de flutuabilidade tem mais uma importância, que para eu que sou biólogo marinho é a principal: proteger a vida marinha. No assoalho marinho vivem seres magníficos e muito frágeis, qualquer pisada ou até mesmo um esbarrão de nadadeiras podem matar ou mutilar centenas de organismos marinhos. 
Então para quem quer se aventurar nesse mundo maravilhoso e repleto de vida terá que adquirir treinamento especializado em mergulho autônomo antes de mergulhar na filmagem subaquática. 
Coral zoantídeo e octocoral     

Como a luz se comporta debaixo d’água.
Precisamos entender como ela se comporta embaixo da água. Isso nos faz pensar em soluções que vão evitar uma imagem monocromática.
A água é pelo menos 1000 vezes menos transparente que o ar. As diversas cores que compõem o espectro são absorvidas separadamente à medida que a profundidade aumenta.  A luz que penetra na água é parcialmente absorvida para ser transformada em calor.
Assim, a intensidade de luz diminui rapidamente conforme acontece à absorção da luz, com redução muito mais acentuada na cor vermelha do espectro. A cor vermelha quase não existe a partir dos cinco metros de profundidade e, abaixo dos vinte metros prevalece o azul em tons mais claros ou escuros.
A imagem a seguir ilustra os caminhos e desvios que ocorrem com a luz antes de atingir o objeto a ser filmado. 

Fenômenos que ocorrem com a luz ao atingir a superfície da água
O uso de filtros especiais (vermelho e verde) ajuda entre os seis e os vinte metros. Fora dessa faixa o resultado não é satisfatório e para restabelecer as cores faz-se necessário o uso de iluminação artificial.


Uso de filtro vermelho ajuda a recuperar as cores naturais dos objetos
Equipamentos
Bom, eu já falei do grandioso fenômeno que é o mar, falei de algumas técnicas de mergulho autônomo e também falei um pouco do comportamento da luz embaixo d’água.  Vamos falar agora da parte mais legal e mais cara da filmagem subaquática: os equipamentos.

Não vou entrar em detalhes com a câmera em si. Existe no mercado um oceano de câmeras e cada cinegrafista tem sua opção em relação a marcas e modelos.

Filmadoras Sony, DSLR 5D MK II e filmadora Red One

O equipamento deve ser compatível com a experiência, necessidade e orçamento de cada profissional. Mas não se preocupem porque para cada câmera existem equipamentos estanques não importando a marca, tipo ou modelo.
Muitos cinegrafistas subaquáticos deixaram suas câmeras filmadoras para utilizarem câmeras DSLR (Digital Singler Lens Reflex) que produzem imagens impressionantes. Eu mesmo utilizo uma câmera DSLR Canon Eos 7D com caixa estanque Sea&Sea para realizar meus trabalhos. Além de ser uma DSLR de ponta, ela me oferece captura de vídeo em Full HD. Outra vantagem é a possibilidade de troca de lentes, para cada tipo de filmagem eu uso uma lente específica que irá produzir efeitos fantásticos. Hoje em dia virou febre no mundo inteiro filmar com DSLR.

Câmera DSLR Canon Eos 7D com caixa estanque Sea&Sea
O principal equipamento para filmagem subaquática é caixa estanque ou housing. Várias considerações devem ser feitas quando se escolhe uma caixa estanque. Ela deve lhe oferecer no mínimo os recursos básicos de sua câmera. A caixa estanque é o equipamento de imagem subaquática mais caro que os demais.

Caixa estanque da marca Gates para câmera filmadora compacta.
No mercado existem muitas marcas que oferecem caixas estanques para diversos modelos da Sony, Canon e Panasonic. As marcas mais conhecidas são: Gates, Light and Motion, Amphibico, Aquatica, Equinox e Ikelite.   Para quem produz vídeo com câmera DSLR, às marcas de caixa estanque são:  Sea&Sea, Aquatica, Subal e Ikelite.
Há dois tipos de caixas estanques: as mecânicas e as eletrônicas. As mecânicas são mais robustas e os comandos são diretamente entre o corpo da caixa e a câmera. Muitos cinegrafistas subaquáticos preferem as mecânicas por serem mais resistentes e não oferecem o risco de defeito eletrônico ou falta de bateria justamente no meio de um mergulho ou na hora que um peixe raro aparece na frente da câmera.

Controles mecânicos da caixa Gates.
As caixas eletrônicas são bastante confiáveis e muito fáceis de operar. As caixas Light and Motion e Amphico são exemplos de caixas estanques eletrônicas. São amplamente usadas por profissionais do mundo todo.



Sistema eletrônico da caixa Light & Motion
Já existem fabricantes brasileiros produzindo caixas por um preço bastante acessível, muito abaixo dos valores praticados pelas marcas supracitadas. Quem optar por uma marca nacional, recomendo a Chroma.
A empresa oferece caixas para vários modelos de câmeras além produzir por encomenda, acesse o site: www.sealpro.com.br


Caixa estanque nacional da marca Chroma
A câmera e a caixa estanque são apenas a ponta do Iceberg. É preciso também de um bom sistema de iluminação, braços articulados, port’s para lentes, caso pretenda fazer vídeos com qualidade.  
O sistema de iluminação pode ser de LED ou HID (High Intensity Discharge).  O Kit LED é mais barato e mais resistente, porém, a penetração na água é menor do que o sistema HID.
Iluminação LED fisheyLed Fix 1000 e Light & Motion Sola 1200
Iluminação HID com bateria externa
É recomendável o uso de duas cabeças de iluminação, assim podemos trabalhar melhor os pontos a serem iluminados e com um maior afastamento entre a lente e a fonte de luz. Para isso é necessário braços articulados rígidos ou flexíveis. Os rígidos são melhores porque suportam cabeças de iluminação mais pesadas sem que ocorra um deslocamento indesejado da cabeça de iluminação.



Braço rígido articulado e braços flexíveis com iluminação dupla


Agora vamos falar dos Port’s ou porta para lentes. Existem dois tipos: o Domo port e o Flat port.
O Domo port é uma peça convexa de vidro externa à caixa estanque. Esse tipo de port é usado para lentes grandes angulares, pois ele é capaz de corrigir o problema da refração. Na água, o Domo Port atua como uma lente que ao mesmo tempo reduz em tamanho e aproxima a imagem. Isso é vantajoso porque diminui a distância entre a lente e o objeto. Na captura de imagens subaquáticas, quanto menos água tiver entre a lente e o objeto, melhor, principalmente em águas com muita partícula em suspensão.

Domo Port Sea&Sea para imagem grande angular. 
O Flat Port nada mais é do que uma porta plana que causa um aumento nos objetos deixando-os pelo menos 25% mais próximo do que o real. Esse efeito é muito bom para macro filmagens, principalmente quando o seu objeto não permite aproximação.

Flat Port Sea&Sea para imagens macro.
Outros acessórios para filmagem subaquática são o microfone externo, e o tripé subaquático. Muitas caixas possuem o encaixe para microfones externos, dando mais uma opção para deixar o vídeo mais rico. Eu particularmente não uso áudio no meu trabalho, prefiro depois na edição acrescentar um trilha que combine com a imagem. 
Na água o som se propaga muito mais rápido do que no ar. Quando se está debaixo d’água é possível escutar com clareza nossa respiração, bolhas exaladas pelo regulador, o som da aproximação de embarcações entre outros sons. O uso do microfone interno da câmera, não produz um resultado satisfatório.
O som acaba se transformando em ruído devido ao eco produzido pelos espaços vazios da caixa estanque. Para quem quer um áudio de qualidade, vai ter que investir em microfones externos.
Há também a possibilidade de adicionar um monitor externo. Caixas estanques eletrônicas como a Light and Motion e a Amphibico já possuem um monitor LCD na parte posterior da caixa.
Monitor externo da marca Gates.
E por último o tripé, essencial para filmagens de cenas estáticas. Muito usado em macro filmagens. A maioria das caixas estanques possui pontos para fixação de tripé, assim facilitando o trabalho de macro filmagem. Podem-se usar tripés desses usados em terra ou até mesmo tripés fabricados aí na sua casa, basta usar sua imaginação e adaptar a sua necessidade.
Tripé subaquático da marca Gates.
O autor
Bom, eu deixei aqui resumidamente um pouco do meu conhecimento e da minha experiência. Espero que tenham gostado desse maravilhoso mundo das imagens subaquáticas.
No vídeo postado abaixo, vocês podem observar um pouco de tudo que falei até agora, as técnicas de mergulho, o cuidado com a biota aquática, o equipamento completo, as dificuldades de se trabalhar em um ambiente com pouca luz, muita partícula em suspensão e muita corrente marinha. Observem que não consegui estabilizar minha câmera e muito menos abrir os braços da câmera para afastar a iluminação da lente.
O outro vídeo mostra imagens captadas em meus trabalhos de pesquisa marinha.
Quaisquer dúvidas podem entrar em contato.
Abraço a todos.
Rodrigo Lopes.

Rodrigo Lopes é biólogo marinho especialista em imagens subaquáticas. Mergulhador autônomo certificado pela PADI (Professional Association of Diving Instructors) e possui diversas especialidades em mergulho, entre elas Advanced Digital Underwater Photographer e Underwater Digital Videographer.





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